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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Índios, jesuítas e bandeirantes: São Paulo nos idos do século XVII

Publicado originalmente na Revista História Viva, n. 98
Alberto Luiz Schneider

Nenhum brasileiro ou estrangeiro que viva ou visite São Paulo pode ignorar uma palavra e seus derivados: bandeirantes. Mesmo se a pessoa não tiver lembranças escolares das mitológicas figuras dos desbravadores paulistas, terá ao menos viajado pelas rodovias Anhanguera, Bandeirantes, Raposo Tavares ou Fernão Dias; passado pela avenida dos Bandeirantes ou pela ponte das Bandeiras; contemplado o   Monumento às Bandeiras, a estátua de Borba Gato ou o Palácio dos Bandeirantes.
E se a pessoa tiver algum requinte de cultura e curiosidade histórica certamente visitará o Museu do Ipiranga, onde terá de conviver com uma legião de bandeirantes pintados, esculpidos e narrados nas obras do acervo da instituição, sempre fortes, másculos, brancos de feição ibérica, retratados como representantes de uma “raça de gigantes”, como os designou o historiador paulista Alfredo Ellis Jr.
Mas quem foram, afinal, os bandeirantes? Não os de pedra, mas os de carne e osso, que viveram no longínquo século XVII, o tempo áureo das bandeiras? Não é possível entendê-los sem compreender o tempo e o mundo em que viveram e se defrontaram com os outros personagens dessa história: os índios e os jesuítas. 
Tudo havia começado ainda no litoral, mas ganhou impulso com a fundação do Colégio dos Jesuítas, que em 1554 estabeleceu no planalto de Piratininga o primeiro núcleo colonial português no interior do continente. Em 1560, o povoado ganhou uma Câmara e se tornou a vila de São Paulo de Piratininga, que se tornaria o ponto de partida para a ocupação de vastas porções da América do Sul nos séculos seguintes.
Aos poucos, colonos portugueses começaram a se fixar na região, tomando posse de porções de terra concedidas pela Coroa – as sesmarias, medidas em léguas –, ou pela Câmara – as datas de terra, medidas em braças. Logo, porém, surgiu um problema: como plantar sem homens? Os paulistas do século XVI, ainda antes de subir a serra do Mar, tinham encontrado nos nativos da região o “remédio para seus males”.
Ao contrário dos senhores de engenho da Bahia e de Pernambuco, que tinham no açúcar um produto de alto valor comercial e podiam importar escravos negros, os modestos paulistas não dispunham de recursos para tanto. Apesar dos obstáculos à escravidão indígena – tais como a obstinada resistência dos autóctones, a firme oposição dos jesuítas e a posição ambígua da Coroa – os colonos foram, ao poucos, elaborando um sistema produtivo assentado na servidão indígena.
Os primeiros povoadores portugueses da Capitania de São Vicente eram majoritariamente homens. O cronista Pero Magalhães Gandavo, por volta de 1570, afirma que parte considerável dos moradores da vila de São Paulo era formada por filhos de índias e brancos. Os mamelucos, mesmo bastardos, já não eram mais “selvagens” e, nos primeiros tempos, gozavam de status muito próximo ao dos brancos.
Diferentemente das índias, apenas concubinas ou mesmo escravas, as mulheres mamelucas casaram, formalmente, com portugueses, dando origem a antigos troncos familiares. O padre jesuíta Manuel da Nóbrega afirma que João Ramalho – um português que naufragara na costa de São Vicente e vivera entre os índios – “tinha filhas casadas com os principais homens” da capitania.
Nos testamentos dos antigos paulistas dos séculos XVI e XVII não era raro que o moribundo deixasse alguns bens para os filhos ilegítimos, mamelucos. Os inventários da época, que demonstram os afetos dos antigos paulistas à beira da morte, também exibem seu senso de propriedade, pois, embora El-Rei declarasse que todos os gentios fossem livres “conforme o direito”, os paulistas os utilizavam como cativos, inclusive deixando-os como herança, afirma o escritor José de Alcântara Machado em seu livro
Vida e morte do bandeirante
Com seus saberes e práticas indígenas, os mamelucos foram vitais para a adaptação dos portugueses à terra, contribuindo para a formação de uma cultura própria, dotada de uma espécie de consciência de si. Os paulistas desenvolveram, a partir da contribuição indígena, padrões tecnológicos apropriados à vida na floresta que iam desde a maneira de andar na selva até o modo de caçar e de preparar os alimentos. Havia sertanistas, em geral mamelucos, que serviam como guias e intérpretes, pois falavam a “língua geral” – uma língua indígena de origem tupi –, transitando entre o mundo indígena e o português.
Conhecimentos de origem nativa foram cruciais para a sobrevivência no sertão, tais como métodos de localização por meio da observação dos movimentos do sol e dos astros; técnicas de caça, pesca e construção de embarcações; sistemas de comunicação por meio do fogo; e o conhecimento da flora e da fauna, fundamental para a seleção de alimentos, bebidas e medicamentos.
Os paulistas, diz Sérgio Buarque de Holanda, sucumbiriam na floresta se usassem um sistema de sinalização convencional, o que os obrigou a cultivar “um espírito de observação permanentemente desperto, o que só se desenvolve ao contato prolongado com a vida nas selvas. Essa espécie de rústico alfabeto, unicamente acessível a indivíduos educados na existência andeja do sertanista, requer qualidades pessoais que dificilmente se improvisam”, afirma o historiador paulista em seu livro
Caminhos e fronteiras
Os bandeirantes levavam na bagagem apenas cabaças de sal e pães duros, feitos de “farinha de guerra” (de mandioca ou de milho) e completavam sua alimentação com a caça e a pesca, incorporando ao cardápio alimentos tirados da terra: frutas silvestres, palmitos, ovos de jabuti e uma infinidade de outros víveres do mato. Outra fonte de comida eram as roças indígenas de milho, feijão e mandioca, geralmente saqueadas. Muitas vezes os paulistas deixavam, na ida, roçados que, na volta, tornavam-se vital  para sobrevivência na floresta. As bandeiras, carregadas de índios presos, demandavam por alimentos para que os cativos chegassem vivos a São Paulo.
A partir de 1570 a Coroa portuguesa baixou uma nova legislação segundo a qual os indígenas só poderiam ser atacados e aprisionados por “guerra justa”. A medida foi uma resposta a pressões da Igreja, sobretudo dos jesuítas, e tornou a vida dos paulistas um pouco mais complicada, mas não acabou com a caça aos nativos.
Entre as  maiores, mais célebres (e mais trágicas) bandeiras estão as expedições sertanistas que destruíram as reduções do Guairá, localizadas em uma área hoje pertencente ao estado do Paraná onde os jesuítas espanhóis haviam fundado, a partir de 1609, várias missões ao longo dos vales dos rios Paraná, Iguaçu, Piquiri, Ivaí, Paranapanema e Tibagi. A região já estava em disputa entre portugueses de São Paulo e os espanhóis do Paraguai, ambos interessados na mão-de-obra indígena, quando os jesuítas ali se instalaram, aumentando a competição pelos índios.
Os padres da Companhia de Jesus – fossem espanhóis ou portugueses (ou mesmo italianos) – não deviam lealdades aos seus respectivos monarcas, mas ao papa e ao próprio projeto evangelizador, cuja missão era reduzi-los à fé cristã e ao catolicismo. Nas fazendas dos paulistas ou nas encomiendas castelhanas, os índios eram objeto de cobiça.
Na primeira metade do século XVII, eram os homens e não as terras que estavam em disputa. Os índios guaranis eram o grande objeto do ávido interesse tanto dos colonos quanto dos jesuítas, embora na região do Guairá houvesse também outras etnias. A reputação de bons agricultores tornava os guaranis particularmente atraentes aos paulistas.
Embora disputassem índios, os castelhanos do Paraguai e os paulistas tinham em comum um profundo ódio dos jesuítas, que os unia apesar dos eventuais conflitos de interesses entre suas respectivas pátrias de origem. As ambições comuns os levaram a manter um comércio ininterrupto na região. Os lusos vendiam produtos europeus e asiáticos, além de escravos negros trazidos do litoral, e compravam prata, que jorrava de Potosí.  
Essa cooperação ficou clara durante a União Ibérica (1580-1640), período em que as Coroas de Portugal e Espanha foram concentradas nas mãos dos reis espanhóis. Nessa época, apesar da proibição do comércio entre as colônias lusas e hispânicas, os paulistas demonstraram tamanha boa-vontade com os castelhanos que propuseram a abertura de um caminho entre São Paulo e o Paraguai, como mostra a ata da Câmara da vila de São Paulo de 1603: “Pareceu bem a todos pelo proveito que se espera deste caminho se abrir e termos comércio e amizade por sermos todos cristãos e (termos) um rei comum”.
O estoque de índios guaranis, reunidos pelos padres jesuítas, atiçou a cobiça dos bandeirantes. Raposo Tavares, em 1628, liderou uma grande expedição contra as reduções do Guairá. Segundo relatos da época, talvez exagerados, a bandeira contou com 900 paulistas, entre brancos e mamelucos, e 2000 guerreiros tupis (outras fontes da época falam em números bem mais modestos).
Trata-se, de qualquer maneira, de uma das maiores bandeiras já montadas pelos paulistas até aquele momento. A violência empregada pelos sertanistas foi desvastadora. O método adotado consistia em cercar a aldeia e “persuadir” os índios a acompanhá-los até São Paulo. Segundo o relato dos jesuítas, em certos casos, os paulistas “entravam, matavam e assolavam (...) só para o terror e o espanto dos que ficavam vizinhos”.
A longa caminhada até São Paulo e outras vilas da  capitania de São Vicente era extenuante. Ainda segundo relatos dos jesuítas – cujo ódio aos paulistas era evidente –, crianças e velhos, enfermos e aleijados eram mortos para que a viagem andasse mais depressa e seus corpos dados de “comer aos seus cachorros”. Por certo os jesuítas interessavam-se em pintar os paulistas como monstros. No entanto, é inegável que os sertanistas usavam fortes “argumentos” para convencerem os índios – muitas vezes presos em ferros, especialmente os homens – para os acompanharem até São Paulo.
Entre 1628 e 1632, por meio de sucessivas bandeiras, as aldeias guaranis do Guairá foram dizimadas. Das quinze reduções, 13 foram destruídas e duas deslocadas mais para o sul, nas proximidades do rio Uruguai. Apesar da imprecisão dos números, o historiador John Manuel Monteiro estima, em seu livro Negros da Terra, que entre 30 mil e 60 mil índios foram capturados no Guairá (para os jesuítas os números chegariam a 300 mil). Ninguém sabe quantos chegaram vivos a São Paulo.
Esgotado o manancial de índios de Guairá, os paulistas avançaram sobre as reduções do Tape, no atual estado do Rio Grande do Sul. A província de Tape era, como a do Guairá, recente, mas reunia milhares de guaranis. Das seis reduções, três foram destruídas até 1638. Raposo Tavares e Fernão Dias Pais, bem como outros sertanistas de menor renome, participaram das entradas que, desta vez, encontraram feroz resistência dos índios.
O ano de 1641 marcou o fim das expedições paulistas às missões espanholas do sul. A bandeira de Jerônimo Pedroso de Barros foi derrotada pelos índios guaranis armados e apoiados pela Missão de São Francisco Xavier (na atual província de Misiones, na Argentina). Contribuiu para a derrota paulista o fato dos jesuítas buscarem apoio do governador-geral do Brasil, do então rei da Espanha e de Portugal, Felipe IV, e até do Papa. O Sumo Pontífice chegou condenar os paulistas, empregando termos duríssimos, o que repercutiu negativamente em Santos, São Paulo e Rio de Janeiro, aplacando temporariamente o ânimo dos bandeirantes.
Entre 1648 e 1676 os bandeirantes voltaram a atacar os guaranis no sul, mas sem a força e o alcance de outrora. Desta vez, as bandeiras mudaram de rumo e passaram a capturar índios na região onde hoje fica Minas Gerias e o Centro-Oeste do Brasil. As bandeiras, agora, eram menores, geralmente organizadas por potentados, ou mesmo senhores paulistas menos afortunados, que reuniam seus parentes, seus índios mansos e se lançavam ao sertão.
Talvez a última bandeira de grandes proporções tenha sido a de Raposo Tavares, que em 1648 atacou as reduções jesuítas do Itatim, onde hoje fica o Mato Grosso do Sul. O historiador português Jaime Cortesão definiu esse empreendimento como “a maior bandeira do maior bandeirante”. Raposo Tavares e seus companheiros do Itatim percorreram milhares de quilômetros, atingindo o rio Madeira, e daí o Amazonas, terminando a expedição em Belém do Pará, após vagarem por três anos na floresta. Quando o “maior bandeirante” voltou a São Paulo, estava envelhecido e desfigurado, a ponto de seus parentes não o reconhecerem.
A história dos bandeirantes ainda teve outros capítulos dramáticos, como a luta dos homens de Domingos Jorge Velho contra o Quilombo dos Palmares, em 1695, no atual território de Pernambuco e Alagoas. Ou ainda, na mesma época, a guerra contra os índios no sertão do São Francisco. A descoberta de ouro, também no final do século XVII, na região onde veio a ser Minas Gerais, serviu para alimentar a tese que os velhos paulistas foram os construtores do território brasileiro.
A historiografia tradicional, representada por autores como Afonso Taunay, Alfredo Ellis Jr. e o próprio Jaime Cortesão, alimentou a tese de que os bandeirantes paulistas “recuaram o meridiano de Tordesilhas” e foram vitais para o alargamento das fronteiras do país. Que as fronteiras do Brasil se fixaram muito além de Tordesilhas é fato, para qual os bandeirantes tiveram, decerto, determinada importância, mas certamente involuntária. Em pleno século XVII, esses exploradores não estavam a serviço da formação territorial do Brasil (que não existia como país), nem agiam por razões geopolíticas. Nem mesmo estavam em busca de território, mas sim de índios, para usá-los como escravos, pois deles, em larga medida, dependiam.
Para saber mais:
História de São Paulo Colonial. Maria Beatriz Nizza da Silva (org.). Editora da Unesp, 2008
Vida e morte do bandeirante. Alcântara Machado. Imprensa Oficial, 2006
Caminhos e fronteiras. Sérgio Buarque de Holanda. Companhia das Letras, 2001
Negros da terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. John Manuel Monteiro. Companhia das Letras, 1994
Raposo Tavarese a formação territorial do Brasil.  Jaime Cortesão. Imprensa Nacional, 1958

A invenção (intelectual) de Brasília


Publicado originalmente na Revista História Viva, n. 78
Alberto Luiz Schneider
A história normalmente começa antes do que parece. Brasília como idéia, projeto e sonho, nasceu antes do presidente Juscelino Kubitschek tomar a decisão política de erguer a nova capital no meio do nada. Muitíssimo antes dos traços modernistas de Lucio Costa e Oscar Niemeyer serem esboçados, Brasília foi desejada e imaginada, desde os primórdios da Independência.
Ao contrário do que convencionalmente se imagina, JK não inventou Brasília – a cidade que em 2010 comemora 50 anos –, apenas a construiu, cumprindo um preceito constitucional, que previa a transferência da capital do país para o centro geográfico do imenso território brasileiro.
Brasília é a materialização de um velho projeto, cuja idéia remonta a ninguém menos que José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), o Patriarca da Independência. Em um panfleto chamado "Aditamento ao projeto de Constituição para fazê-lo aplicável ao Reino do Brasil", publicado em Lisboa, em 1822, Bonifácio propôs a construção de uma nova capital: "No centro do Brasil, entre as nascentes dos confluentes do Paraguai e Amazonas, fundar-se-á a capital desse Reino, com a denominação de Brasília".
Após  a efetivação da Independência, da qual fora um dos artífices, Bonifácio tornou-se presidente da primeira Assembléia Constituinte de nossa história, em 1823, onde defendeu, entre outras idéias, a abolição do tráfico negreiro, a instrução pública, a fundação de uma universidade, uma reforma agrária e a construção  "de uma nova capital do Império no interior do Brasil, em uma das vertentes do rio São Francisco, que poderá chamar-se Petrópole ou Brasília..."
Houve manifestações dessa natureza ainda antes das proposições de Bonifácio. Hipólito José da Costa (1774-1823) publicou, a partir de 1813, no Correio Braziliense – veículo de sua propriedade e considerado o primeiro jornal brasileiro, embora publicado em Londres –, vários artigos em que reivindicou "a interiorização da capital do Brasil, próxima às vertentes dos caudalosos rios que se dirigem para o norte, sul e nordeste". Obviamente José Bonifácio conhecia as idéias de Hipólito que, como ele, era um intelectual liberal e progressista para os padrões da época.
O tema voltou à baila através da pena do historiador e diplomata Francisco Adolfo de Varnhagen (1816-1878), que ao longo de sua vida intelectual escreveu diversas vezes sobre o assunto. Em 1849, em uma carta ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, intitulada #Memorial orgânico#, o historiador enumerou argumentos em favor de uma capital no interior do continente.
O texto mais importante de Varnhagen, porém, é #A questão da capital: marítima ou no interior?#, publicado em 1877, quando era embaixador em Viena. Novamente, ele teceu as virtudes do projeto de erguer uma capital no centro do país. Narrou ainda sua viagem ao sertão de Goiás e apontou o local que lhe pareceu mais apropriado à construção da "futura capital da União Brasílica”, localizado no “triângulo formado pelas lagoas Formosa, Feia e Mestre d'Armas, das quais manam águas para o Amazonas, para o São Francisco e para o Prata". O local é muito próximo aonde de fato Brasília viria a ser construída.
República
No contexto da Proclamação da República, a idéia de se construir uma capital no meio do Brasil reapareceu. O artigo terceiro da constituição republicana de 1891, proposto pelo constituinte catarinense Lauro Müller, estabeleceu o seguinte: "Fica pertencente à União, no Planalto Central da República, uma zona de 14.000 km2, que será oportunamente demarcada, para nela estabelecer-se a futura Capital Federal".
O Presidente Floriano Peixoto, atendendo às suas inclinações nacionalistas, deu consequência ao postulado constitucional, criando a “Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil” – que durou de junho de 1892 a março de 1893 – e foi liderada pelo astrônomo belga, radicado no Brasil, Louis Ferdinand Cruls.
A partir dos trabalhos da Comissão, formada por médicos, botânicos, astrônomos, geólogos, estavam dadas as condições para que “Brasília” aparecesse no #Pequeno Atlas do Brasil#, de 1922.  Assim, 35 anos antes do início das obras, a futura capital do Brasil apareceu no mapa, no interior de Goiás, praticamente no lugar em que seria construída.
A antiga idéia, como não poderia deixar de ser, reapareceu na Constituição de 1934, embora o projeto não tenha avançado, em função da turbulência daqueles anos difíceis. No entanto, o projeto reapareceu no artigo quarto das disposições transitórias da constituição de 1946. Getúlio Vargas, então presidente eleito, criou por decreto, em 1953, a “Comissão de Localização”, presidida pelo general José Pessoa, cujos trabalhos transcorreram ao longo de 1954.
Em dezembro de 1955 – ainda sob presidência temporária de Nereu Ramos e poucas semanas antes da posse do presidente eleito JK–  foi baixado o decreto n° 38.261, constituindo a “Comissão de Planejamento da Construção e da Mudança da Capital Federal”. Já sob a presidência de JK, em 19 de setembro de 1956 foi lançado o concurso nacional do Plano Piloto de Brasília.
Depois de várias especulações – se cogitou a hipótese de erguer Brasília no Triângulo Mineiro – a opção recaiu sobre o “Quadrilátero Cruls”, já proposto em 1893, cuja localização coincide com o local onde Lúcio Costa e Oscar Niemeyer finalmente projetaram a cidade.
Marcha para o Oeste
Quando JK tomou posse, o país havia assistido alguns esforços em ocupar o interior do território nacional. Ainda no começo do século XX, o marechal Cândido Rondon desbravou o oeste brasileiro, levando a cabo a tarefa de implantar telégrafos que ligassem os estados de Mato Grosso, Amazonas e Acre ao restante do país. Entre 1907 e 1917, a expedição estendeu 2.200 km de linhas telegráficas.
A conquista do Brasil continuou na década de 1940. Getúlio Vargas criou a Marcha para o Oeste”, a fim de incentivar a ocupação do centro-oeste. A Expedição Roncador-Xingu foi planejada para conquistar e desbravar o coração do Brasil. Iniciada em 1943 e liderada pelos irmãos Villas Bôas, a expedição adentrou o Brasil central, chegando até a Amazônia,  travando contato com diversas etnias indígenas ainda desconhecidas.
Naquele  momento o início da década de 40 a grande maioria dos 43 milhões de brasileiros se concentrava no litoral ou próxima dele. A construção de Brasília faz parte de um movimento histórico cujo objetivo maior foi ocupar o vasto território brasileiro.
Até meados do século XX, o Brasil ainda era, metaforicamente, um “arquipélago”, pois sequer havia estradas que conectassem as diferentes regiões do país. A Belém-Brasilia, iniciada só nos anos 50, praticamente junto com as obras da nova capital, foi a primeira rodovia digna desse nome entre a Amazônia e o restante do país.
Brasília, poranto, deveria contribuir para a interiorização da população brasileira, facilitando a integração física do território nacional. Era o Brasil empenhado em ocupar o Brasil, dando vazão às antigas formulações de José Bonifácio Andrade e Silva e Francisco Adolfo de Varnhagen, em pleno século XIX.
Brasília, Brasil
Brasília encerra idéias importantes, como as de integrar e modernizar o país e a de construir uma nação a partir de um projeto, e não ao deus-dará. Mas também simboliza a corrupção que marcou sua construção, os negócios escusos entre empreiteiras e o Estado, e a existência do poder central longe da maioria dos brasileiros e da pressão das ruas.
A capital, contudo, também simboliza uma “vontade de nação”. A cidade é portadora de um projeto de país, de uma idéia de grandeza. Niemeyeir a vestiu com linhas modernas. E ainda que  os prédios em traços algongados e curvos carreguem imperfeições, dificultem a vida e pareçam artificiais, a cidade encerra idéias de beleza, inclusão, e convivência.
Ambigua, torta, bela e longe da maioria do brasileiros, Brasília é brasileiríssima.


Língua Portuguesa: a mestiça e vibrante filha do latim

Publicado originalmente na Revista História Viva, n. 70
Alberto Luiz Schneider

Um dia, o idioma de Luís de Camões, com seu exótico terminativo “ão”, saiu de um pequeno pedaço da Península Ibérica e se esparramou pelo mundo, inclusive por metade da América do Sul. Cumpria assim uma pequena etapa de uma peripécia atlântica que, até aqui, já envolveu aproximadamente 230 milhões de pessoas espalhadas por quatro continentes: Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor Leste.  
A última flor do Lácio, como graciosamente Olavo Bilac referiu-se à língua, é uma espécie de documento vivo, vibrante e mestiço da história humana. Seu percurso começa no Império Romano, passando depois pela Universidade de Coimbra, pelas grandes navegações e pela aventura moderna que conectou Europa, América e África.
O português é uma das línguas neolatinas, como o italiano, o espanhol, o romeno e o francês – as filhas orgulhosas do velho latim. Como língua viva, o latim falado no Império Romano extinguiu-se em torno dos anos 500 a 600 dc. Findo o Império, porém, as populações que o falavam ativamente não adotaram nenhum outro idioma.
Assim, o latim assumiu outras feições, modificando-se de modo autônomo em cada uma das províncias européias de Roma, dando à luz dialetos muito próximos da língua-mãe. Na Lusitânia brotou o galaico-português. Na Hispânia, o castelhano, entre outros idiomas ibéricos. Na Gália, o francês e ainda outras línguas, como provençal. Várias formas de italianos surgiram na Península itálica.
O português descende do latim falado nos primeiros séculos depois de Cristo por soldados, camponeses e comerciantes. Eles usavam uma língua dita vulgar, já consideravelmente diferente do latim literário empregado por Cícero ou Virgilio. Ironicamente, esse latim clássico, do Império Romano pagão, sobreviveria durante toda a Idade Média na Europa Ocidental como a língua oficial da Igreja cristã, a dar unidade lingüística e cultural para todo o continente. Esse latim eclesiástico também teve sua própria dicção
O movimento histórico do idioma nesse período foi curioso e algo contraditório: enquanto um latim vulgar declinava junto com o Império que o expandiu, um outro, o culto, ascendia como a língua eclesiástica, pouco a pouco superando o grego, em que foi escrito o Novo Testamento.
A língua adotada pela Igreja também viria a influenciar a consolidação dos modernos idiomas neolatinos, emprestando palavras e expressões eruditas a escritores e pensadores a partir dos séculos XIV, XV e XVI. Já havia, então, Dante Alighieri escrevendo em italiano. Luís de Camões em português. Miguel de Cervantes, em castelhano. Michel de Montaigne, em francês.
Nesse momento histórico, a Renascença, apesar de todo o culto à antiguidade clássica, foi um verdadeiro viveiro de línguas, selando o destino do latim que – como estrela morta – continuou a brilhar na noite dos tempos através das suas filhas, as línguas neolatinas.
A língua do povo
Em torno do ano 1000, o galaico-português – falado no norte de Portugal e na Galícia – começou a se expandir ao sul e, lentamente, a se dividir, embora ainda hoje o galego e o português sejam muito próximos. O idioma do Condado Portucalense, mais tarde Reino de Portugal, recebeu influência do árabe por meio das populações muçulmanas que habitavam o sul da Península Ibérica, gradativamente expulsas pelos cristãos.
Os primeiros apontamentos oficiais em português remontam ao século XII. Nessa época, os documentos tendiam a ser escritos no latim culto dos padres, e não na língua das pessoas comuns. No entanto, em 1279, o rei D. Diniz, também poeta, proclamou justamente a língua das pessoas comuns como a oficial.
Em 1290 foi criada a Universidade de Lisboa (em 1308 transferida para Coimbra) com a missão de organizar, defender e difundir o idioma do reino de Portugal, sempre temeroso e vigilante quanto ao poder dos vizinhos castelhanos. A primeira gramática em português surgiu em 1536, assinada por Fernão de Oliveira, e a segunda, em 1540, por João de Barros.
Como se vê pelas datas, quando Pedro Álvares Cabral aportou em terras brasileiras o português era muito jovem, experimentando sua própria formação num país com uma população que mal chegava ao milhão de habitantes, concentrados numa pequena faixa de terra litorânea. Parece inacreditável que esse povo tenha sido capaz, nos séculos XV e XVI, de exportar sua língua singrando os mares, circundando a África e chegando às Índias e ao Japão antes de todos os outros europeus.
Foi com a colonização da imensa costa atlântica do Brasil que o português deitou raízes em solo americano, alcançando uma vastidão impressionante. Nem o mais otimista dos lusitanos do século XVI sonharia que metade da América do Sul viesse a falar a sua língua, concentrando no lado de baixo do equador a imensa maioria de seus falantes.
Múltipla e mestiça
A partir de 1500, Portugal remeteu ao Brasil tudo o que ele mesmo era. Transplantou-se ao Novo Mundo. Transfigurou-se nos trópicos. A língua portuguesa que chegou ao Brasil era tão múltipla e plural quanto as próprias pessoas que a falavam.
O falar dos primeiros colonizadores de Olinda ou São Vicente era bem diferente do de D. João VI e dos lisboetas que aportaram com a Corte no Rio de Janeiro em 1808. Que, por sua vez, era distinto do linguajar do milhão e meio de imigrantes portugueses – pobres e iletrados em sua maioria – que chegaram aos portos brasileiros entre 1880 e 1920, vindos do Algarve, Trás-os-Montes, Minho e Ilha da Madeira, praticando formas singulares de comunicação oral.
Durante todo o violento processo colonizatório a língua portuguesa teve de enfrentar outras: a espanhola no sul, a holandesa em Pernambuco, a francesa no Rio de Janeiro e no Maranhão. E por todo o território brasileiro travou ainda renhida guerra contra o tupi-guarani, além de outras 350 falas ameríndias.
Em torno do ano de 1700, em São Paulo, a maioria das pessoas falava a língua geral, ou seja, um tupi-guarani, já mesclado com português, codificado pelos padres jesuítas para catequizar os índios. Essa língua deixou sua marca no vocabulário e no modo como certas palavras são pronunciadas (ver reportagem sobre a língua geral na edição 64). O português, assim, tornou-se ainda mais mestiço – um pouco índio, um pouco caboclo.
Em 1757 o rei de Portugal D. José I, sob inspiração do Marques de Pombal, proibiu a língua geral em benefício do idioma da metrópole. A rigor, como observou o linguista e dicionarista Antonio Houaiss, o português do Brasil só se fez forte nos séculos XVIII e XIX, quando, do ponto de vista do idioma, houve renovadas vitórias do colonizador sobre o colonizado.
O português prevaleceu. O brasileiro lê Fernando Pessoa ou José Saramago sem dicionário e com a mesma intimidade emocional com que se deleita com as páginas escritas por Machado de Assis ou Guimarães Rosa. Mas a existência da língua é um documento histórico, que traz dentro de si o registro de venturas e desventuras do passado.
O português venceu, sim, mas a história o tributou: no Brasil, deixou-se atravessar por palavras indígenas, como jururu e cuia; africanas, como bunda e cafuné; francesas, como paletó e matinê; inglesas, como trem e futebol; italianas, como soneto e carnaval; espanholas, como bolero e chimarrão; alemãs, como blitz e cuca; japonesas, como quimono e tatame.
A língua acolheu ainda muitas outras influências, que expressam as muitas humanidades que nos constituíram. Abrasileirou-se não apenas no vocabulário, mas no modo de dizer, na sintaxe e na musicalidade. O português, disse Antonio Candido, “transladado ao Sul da América, não perdeu o caráter grave, nem a têmpora máscula, nem o tom de funda melancolia que lhe imprimiu a esforçada e trágica aventura de nossos avós; e ainda adquiriu preciosos elementos de encantadora suavidade, de frouxa, dolente e maviosa ternura”.
Cronologia
1279
O rei D. Dinis decreta que a chamada "língua vulgar", um latim modificado, passe a ser a língua oficial de Portugal.
1290
É criada a Universidade de Lisboa
1308
A universidade de Lisboa é transferida para Coimbra
1500
Descoberta do Brasil. Ao longo do século XVI, colonização portuguesa em várias partes da África
1536
Publicação em Lisboa da primeira gramática da língua portuguesa, de Fernão de Oliveira
1540
Publicação da segunda gramática, de João de Barros
1572
Publicação de Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões
1712-1721
Publicação, em oito volumes, do primeiro dicionário português-latim, o #Vocabulario portuguez e latino#, do religioso francês radicado em Portugal Rafael Bluteau
1750
Criação da Real Academia das Ciências de Lisboa
1757
O marquês de Pombal institui a Lei do Diretório dos Índios, que proíbe no Brasil o uso da língua geral, na Amazônia chamada de nheengatu (que misturava o português às línguas indígenas)
1789
Primeira edição em Portugal do #Dicionário da língua portuguesa#, de Antonio de Morais Silva, reeditado em 1813, 1831, 1844, 1858, 1877 e 1889
1844
Publicação do primeiro romance brasileiro, #A moreninha#, de Joaquim Manuel de Macedo
1883
Primeira descrição do sistema fonético do português de Portugal, feito pelo filólogo Aniceto dos Reis Gonçalves Viana
1904
 Gonçalves Viana publica em Lisboa #Ortografia nacional#, obra que simplifica o português
1911 Primeira reforma ortográfica em Portugal
1931 Primeiro Acordo Ortográfico Brasil-Portugal
1939
Publicado o #Grande e Novíssimo Dicionário da Língua Portuguesa#, primeiro grande dicionário brasileiro, organizado por Laudelino Freire, membro da Academia Brasileira de Letras
1996
Criação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e, a partir de 2002, Timor-Leste)
2008
Adesão do Brasil a uma nova reforma ortográfica para países de língua portuguesa